A regra das 10.000 (dez mil horas) foi um conceito cunhado por Malcolm Gladwell para seu livro Outliers. Na obra, que se tornou um best seller, o autor analisa vários dados sobre pessoas bem sucedidas e proficientes em determinados tópicos ou habilidades. Em seguida, ele tenta destrinchar os motivos que levaram as pessoas até esse sucesso, e 10.000 horas de prática dentro da área na qual essas pessoas eram especialistas foi o número ao qual Malcolm foi capaz de chegar, e que separava o talento de uma “pessoa comum”.

Teoria das 10.000 horas funciona?

Nos anos seguintes à publicação do livro, como acontece com todas as publicações nesse estilo, a regra das 10.000 horas tornou-se um ponto de referência para muitas pessoas, mas pesquisas científicas rigorosas mostraram que ela é bem imprecisa, o que é uma boa notícia.

Afinal, 10.000 horas significariam pelo menos 90 minutos de prática diária por 20 anos seguidos. E há poucas pessoas que tenham a dedicação e disciplina para se manterem todo esse tempo até adquirirem um talento em seu nível máximo.

Teoria das 10000 horas

As 10.000 horas de prática para se tornar proficiente em uma habilidade não são um padrão para todas as pessoas, mas podem ser usadas como uma referência para a importância da prática para atingir a perfeição. (Foto: www.linkedin.com)

10.000 horas é uma simplificação de uma ideia mais complexa

A teoria das 10.000 foi a visão que se tornou popular da interpretação de um autor para os dados que ele analisou, que simplesmente constatavam que uma certa quantidade de horas de prática em uma determinada área do conhecimento pode tornar uma pessoa um talento naquela área. Mas não existe esse “número mágico”, assim como não há “mágica” para nada no mundo.

As pessoas querem um “atalho”

Quando alguém fala “você precisa praticar 10.000 horas de piano para ser um pianista profissional”, fica bem mais fácil criar uma rotina de treinamento e prática para adquirir esse talento, não é? Só que tem gente que vai demorar muito mais tempo para conseguir adquirir essa habilidade, e outros que vão demorar muito menos. Afinal, nem todo mundo é um Beethoven para compor o primeiro concerto para piano aos 14 anos de idade.

 

Não há um caminho mais fácil. Há o caminho que funciona para você. E mesmo os mais talentosos vão continuar praticando pelo resto de suas vidas. Em uma história que ouvi de um músico, o filho de Tom Jobim disse que ficava revoltado que muitas pessoas lembravam apenas de seu pai como um boêmio, mas mal sabiam eles que Tom passava pelo menos 4 horas por dia estudando piano. O resultado, nós já conhecemos não é?

 

Prática não é só o que você precisa para dominar algo

Pesquisas mais recentes mostraram que muitas pessoas que praticam uma habilidade por muito tempo podem não desenvolver qualquer talento. Isso pode ter vários motivos, desde genéticos até fatores ambientais, interesse pessoal, profissional, etc.

Por exemplo, tenho amigos que moraram mais de 8 anos no exterior e hoje não conseguem formular duas ou três frases na língua daquele país, mesmo tendo praticado e usado todos os dias. Conversando com eles e pesquisando sobre o assunto do aprendizado, e sobre a teoria das 10.000, há também outro excelente motivo para eles não terem dominado a língua: a qualidade do aprendizado.

 

Como aprender uma habilidade: preocupe-se com a qualidade, não quantidade

Não vai adiantar nada 10.000 horas de prática se essa prática não tiver qualidade. Por qualidade, a prática tem que envolver:

  • Feedback: a criação de um ciclo de feedback inteligente, criando uma maneira de detectar com mais precisão os seus erros e identificar potenciais melhorias que estão tendo um efeito sobre a sua aprendizagem. O feedback de um professor, colegas, amigos, e familiares também é importante para o aperfeiçoamento da habiidade.
  • Prática deliberada: a prática deliberada consiste em se concentrar deliberadamente nas sub-habilidades que compõem uma habilidade geral, dominando cada uma delas para então, abordar a habilidade geral. Isso contribui para aumentar seu tempo de concentração para cada atividade (já que são atividades mais simples), e facilita a microgestão para adquirir um novo talento.
  • Ensino: você tem que ser capaz de ensinar o que aprendeu. As pessoas tem uma capacidade muito maior de reter o que aprenderam se elas ensinam a outras pessoas o que aprendem. Pode ser pela responsabilidade, pode ser pela necessidade de revisão da matéria, ou o que for, mas pessoas que ensinam o que aprenderam tem um índice de retenção de aprendizado muito maior do que pessoas que usam outras estratégias.

Seguindo esse tripé, o que já não é algo simples, aprender uma habilidade pode demorar bem menos tempo do que 10.000 horas. Ou pode demorar mais. Cada pessoa é diferente, e tudo vai depender da sua disciplina, dedicação, e vontade de aprender.

 

Colocando tudo isso em prática

Aprender uma habilidade vai envolver muito ensaio e erro, e muitos ajustes finos. 10.000 horas, como dissemos e podemos reafirmas, é um número bem errado de se afirmar, com bases nem um pouco científicas. É bem melhor partir para uma base de prática com qualidade. Uma habilidade, assim, pode ser dominada em muito menos tempo, demandando muito menos de você mentalmente e fisicamente.

Peguemos novamente o exemplo de nosso querido Tom Jobim. Ele praticava pelo menos 4 horas de piano todos os dias, com qualidade. E todos os dias, ia à praia tomar um uísque. Foi de uma dessas tardes boêmias de relaxamento que saiu a inspiração para Garota de Ipanema. Traduzindo: quem trabalha e estuda com qualidade, sempre vai estar aprendendo. Quem se preocupa demais com quantidade, pode acabar perdendo importantes oportunidades.

 

Que outros métodos e técnicas de aprendizagem têm ajudado a acelerar o seu aprendizado? Acha que as 10.000 horas de prática funcionam mesmo? Por que?